Merci 40th Anniversary: a arte do blend selvagem na linguagem da Side Project
“A expectativa é de uma Wild Ale seca, ácida, terrosa e marcada por Brett, com carvalho envelhecido, tanino e uma acidez de caráter vinhado.”
Na prática, esta Merci parece menos sobre impacto imediato e mais sobre arquitetura: acidez, Brett, madeira e memória de blends anteriores colocados em diálogo. É uma cerveja para beber com atenção, não para procurar doçura fácil ou fruta evidente.
Sobre a cerveja
O que está confirmado é bastante específico. A Side Project menciona uma base de wild ale mais funky e selvagem, associada a um estoque inspirado em Coexpressionalism; um puncheon que anteriormente comportou Blended 2017; e um puncheon de Oude Fermier descrito como mais Brett-forward do que o habitual. Também está declarado que a ideia original do Blend #2 envolvia suavizar uma base mais complexa e selvagem com barris selecionados de Oude Fermier. Em outras palavras: a cerveja é construída por camadas, e não por adição de ingredientes chamativos.
Tecnicamente, uma American Wild Ale costuma trabalhar com fermentações mistas, acidez, atuação de Brettanomyces e maturação que pode trazer secura, rusticidade e notas terrosas. No caso desta Merci, há base real para esperar um perfil funky, Brett-forward, vinhado e amadeirado, mas sem transformar expectativa sensorial em certeza absoluta de taça. Os descritores disponíveis — funky, Brett, acidez vinhada, madeira envelhecida, fermento selvagem, complexidade terrosa, notas de cidra, tanino, umami e envelhecimento — ajudam a orientar a leitura, sempre como percepção relatada e não como ficha objetiva de ingredientes.
A relevância da cerveja está menos no número e mais na precisão do gesto. Com 7% ABV e avaliação pública de 4,30 no Untappd a partir de 723 registros, ela aparece como uma peça pequena dentro do universo da Side Project, mas conceitualmente densa: um blend comemorativo que conversa com a própria história da cervejaria, com a The Wine And Cheese Place e com a tradição moderna das cervejas ácidas de barril nos Estados Unidos.
Origem & processo
A cerveja foi produzida pela Side Project Brewing, de St Louis, Missouri, para o 40º aniversário da The Wine And Cheese Place. O nome Merci pertence a uma linha de blends da cervejaria; nesta edição, a intenção confirmada foi resgatar características do Merci Blend #2, um dos blends favoritos citados pela própria descrição fornecida.
Confirmado: trata-se de uma Wild Ale - American com 7% ABV. A descrição informa que o blend reuniu uma base de wild ale funky de estoque inspirado em Coexpressionalism, um puncheon que havia comportado Blended 2017 e um puncheon de Oude Fermier considerado excepcionalmente mais Brett-forward do que o normal. Também está confirmado que a referência conceitual era o Merci Blend #2, no qual uma base mais selvagem era suavizada por barris selecionados de Oude Fermier. Tecnicamente, esse tipo de construção costuma buscar equilíbrio entre acidez, rusticidade de fermentação mista, madeira e secura; como inferência editorial, a função do blend parece ser integrar arestas selvagens sem apagar a identidade funky da base.
Os barris
Blending & cuvée
Perfil sensorial
Com base nos descritores percebidos fornecidos e na descrição do blend, é razoável esperar um nariz funky e Brett-forward, com fermentação selvagem, madeira envelhecida, nuances terrosas e possível lembrança de cidra. A acidez vinhada pode aparecer como impressão de fruta fermentada e secura, não como confirmação de uva ou vinho no processo.
A expectativa é de acidez nítida, perfil seco e caráter de fermentação mista, com tanino de madeira e uma camada rústica associada a Brett. Os descritores de umami e complexidade terrosa sugerem uma leitura menos frutada e mais madura, mas isso deve ser tratado como percepção relatada, não como atributo garantido em todas as garrafas.
Para uma Wild Ale de 7% ABV com passagem por puncheons, espera-se corpo médio a leve, carbonatação capaz de levantar a acidez e sensação final relativamente seca. O tanino pode dar firmeza e leve adstringência, especialmente conforme a cerveja aquece.
O final tende a ser seco, ácido e amadeirado, com persistência funky e possível eco de cidra, Brett e carvalho antigo. A leitura provável é de elegância rústica, não de doçura residual.
Como beber
Uma faixa moderadamente fresca preserva a acidez e a vivacidade, enquanto alguns minutos de aquecimento ajudam a revelar madeira, Brett e nuances terrosas.
Antes de abrir: Manter a garrafa em pé e resfriar sem choque térmico. Abrir com cuidado, especialmente se houver carbonatação mais viva, comum em cervejas de fermentação mista.
No copo: Pode ganhar definição entre 5 e 20 minutos, quando a acidez deixa de dominar a primeira impressão e a madeira se integra melhor ao conjunto.
Evolução no copo
- 0–5 minA primeira leitura tende a destacar acidez, carbonatação e o lado mais cortante da fermentação selvagem. O carvalho pode aparecer mais como estrutura do que como aroma evidente.
- 5–15 minÉ a janela em que a cerveja provavelmente se organiza melhor: Brett, madeira envelhecida, acidez vinhada e notas terrosas tendem a ficar mais legíveis.
- 15–30 minCom temperatura um pouco mais alta, podem surgir impressões mais maduras, tanino e um possível traço de umami. Se a garrafa tiver evoluído bastante, a oxidação positiva ou negativa também pode se tornar mais perceptível.
Harmonização
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Queijo de casca lavada, como Époisses ou Taleggio — A rusticidade do queijo conversa com o caráter funky e Brett-forward, enquanto a acidez corta gordura e sal.
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Comté ou Gruyère curado — A doçura láctica e as notas de nozes do queijo fazem contraponto à acidez vinhada e ao tanino do carvalho.
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Porchetta com pele crocante — A acidez ajuda a limpar a gordura, e o caráter terroso da cerveja acompanha ervas, carne suína e tostado.
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Cogumelos assados com missô claro — O umami provável e a complexidade terrosa da cerveja encontram eco nos cogumelos, enquanto a acidez evita peso excessivo.
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Salada de endívias, maçã verde e nozes — A maçã verde conversa com a possível nota de cidra, a endívia aceita amargor vegetal e as nozes aproximam o conjunto da madeira.
Para quem é
- quem aprecia American Wild Ale seca, ácida e de fermentação mista
- quem procura cervejas com Brett mais evidente e perfil funky
- quem gosta de blends de barril em que madeira atua como estrutura, não como doçura
- bebedores de lambic, saison selvagem e farmhouse ales ácidas que aceitam rusticidade
- quem prefere cervejas doces, frutadas ou de acidez discreta
- quem associa barril principalmente a baunilha, coco ou bourbon
- quem evita Brett, notas terrosas ou caráter funky
- quem busca uma cerveja direta, limpa e de interpretação imediata
Guarda
Com o tempo: A própria descrição antecipa que a cerveja deve envelhecer graciosamente, em comparação com o Merci Blend #2. Tecnicamente, é razoável esperar maior integração de acidez, madeira e Brett com o tempo, além de possíveis notas mais secas, terrosas e oxidativas.
Atenção: Guardar muda a cerveja, não necessariamente melhora. Com o tempo, pode haver perda de vivacidade, aumento de percepção oxidativa, queda de carbonatação ou domínio de notas mais maduras sobre a acidez fresca.
Armazenamento: Em pé, no escuro, em local fresco e de temperatura estável.
Riscos de execução
- Acidez excessiva — Em blends de wild ale, o controle tende a vir da seleção de barris e da proporção entre peças mais ácidas, mais secas e mais estruturadas.
- Brett dominante demais — A descrição indica uma peça de Oude Fermier mais Brett-forward que o normal; o risco técnico seria ela tomar o blend. O controle provável está na dosagem dessa fração dentro do conjunto.
- Madeira ou tanino em excesso — Puncheons costumam oferecer influência mais gradual que barris menores; ainda assim, o blend precisa equilibrar estrutura tânica com acidez e corpo.
- Falta de integração entre bases diferentes — A própria lógica de blending serve para isso: selecionar peças que se completem, em vez de apenas somar intensidade.
- Oxidação indesejada com guarda prolongada — Cervejas ácidas de barril podem envelhecer bem, mas guarda não é melhora garantida. Armazenamento fresco, escuro e estável reduz o risco de perda de frescor e de aromas apagados.
Cervejas relacionadas
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Merci Blend #2
— Blend anterior da linha Merci citado pela descrição como uma das referências favoritas da cervejaria.
É a chave conceitual desta edição: o 40th Anniversary Blend foi pensado para recuperar características associadas a esse blend.
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Oude Fermier
— Cerveja da Side Project mencionada na descrição como origem de barris usados para suavizar a base mais selvagem.
Ajuda a entender a função de equilíbrio do blend, especialmente na interação entre rusticidade, acidez e carvalho.
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Blended 2017
— Cerveja citada porque um dos puncheons usados no blend anteriormente a comportou.
O histórico desse puncheon é parte confirmada da arquitetura da Merci 40th Anniversary.
Se você conhece…
- American Wild Ale de fermentação mista— Compartilha a lógica de acidez, Brett, secura e maturação em madeira; difere por ter uma construção de blend muito específica, ligada a Merci Blend #2, Oude Fermier e Blended 2017.
- Lambic ou gueuze tradicional— Pode lembrar a acidez, a rusticidade e a importância do blend, mas não deve ser confundida com lambic belga: esta é uma interpretação americana, feita pela Side Project, com referências próprias da cervejaria.
- Saison selvagem envelhecida em carvalho— A proximidade aparece na secura, no caráter farmhouse e na atuação de Brett; a Merci tende a se apresentar mais como composição de barris e estoques do que como expressão direta de uma única base.
Linha do tempo
O ritual
Abra com calma. Sirva pouco. Espere. A cerveja muda no copo — e é aí que ela conta a história dela.
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